Então chego para a minha consulta no oftalmo. Entro na sala e vou logo dizendo:
- Doutor, eu sei que estou seis meses atrasado para a consulta, porque o senhor pediu para vir em agosto (2006) e estou vindo só agora (janeiro/2007). Espero que ainda haja alguma chance de eu enxergar até o final do dia.
Mas o doutor não sorriu. Compenetrado, muito sério, limitou-se a dizer:
- Está passando o colírio?
Gostei dessa maneira como ele reagiu. Porque o fato de não ter caído na minha piadinha denotava duas coisas: o ressentimento dele, quase paternal, pelo meu descuido com algo importante relacionado à minha vida e, engolido o ressentimento, a preocupação real sobre como andavam, afinal, meus olhos imprestáveis.
Minha mãe andava me fazendo terrorismo com o problema. Dizia que o filho do Roberto Carlos também havia tido glaucoma e que ficara cego.
- O filho do Roberto Carlos!,
ela reiterava. Eu não quis me aprofundar em saber se ela estava falando do Rei ou o do meião, mas desconfio fortemente que fosse do primeiro.
Como tem dias que meus olhos ficam subitamente vermelhos, eu andei desconfiando mesmo de uma possível cegueira gradativa. Mas tem respostas que você tem medo de ouvir, então não quis perguntar ao doutor se havia mesmo chance de eu ficar cego. Imagino que se a situação fosse deveras grave, ele me diria. Ou não. Mas ficou todo contente ao medir a pressão dos olhos e verificar que ela estava controlada.
- Ah, mas muito bom, hein? Esse colírio é mesmo muito bom!,
disse, repetidas vezes. Mas daí provavelmente se lembrou que eu fora um péssimo paciente, dizendo:
- Você, como jornalista, precisa estar com essa visão perfeita. Se não, como vai ser? Precisa se cuidar!,
e tudo isso novamente num tom profundamente paternal. Eu ali, há pouco assustadíssimo com a possibilidade de ficar cego, carente, desamparado, diante de um médico que parecia sinceramente preocupado comigo. Porque quando você é criança, seus pais resolvem todos os seus problemas de saúde. Mas daí você fica velho, sua mãe opta pelo terrorismo psicológico e você fica com medo de fazer perguntas. Ô, fase.
Tive vontade de dar-lhe um abraço, mas me contive, prometendo não esquecer do colírio. (FF)