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Do inferno à esperança
Postado por Cotovelares às 19h10

O problema de se viver uma crise existencial tem relação direta com o bolso: agora é essa fase de me permitir generosas indulgências, com a desculpa clássica de que “a vida tá uma merda mesmo, então vou gastar dinheiro, foda-se”. Vou à Fnac fazer meu pré-almoço e saio de lá com menos R$ 50, só com Coldplay: R$ 40 do CD novo (com direito a DVD bônus) e R$ 10 da nova Rolling Stone. E pintasse ali uma plaquinha informando a existência de um único e derradeiro ingresso para o show deles, ao preço-teto de R$ 400, eu não garanto que passaria impune, não. Ainda não decidi se estou contente ou chateado por não ter meu ingresso. Contente eu ficaria pela oportunidade de ver essa banda que aprendi a gostar com a devoção pela qual nunca tive com nenhuma outra. Chateado porque, não bastasse ter menos R$ 400 na conta, eu não teria nem com quem ir. É, amigo.

 

Daí eu poderia pensar: “pelo menos comprei coisas bacanas e farei usufruto de uma bela feijoada”. Acontece que não é com revistinha, nem com CDzinho, que você consegue enganar o Inferno Astral. Só que fui descobrir isso muito tarde: se você almoça todos os dias no mesmo restaurante, nada mais natural do que você marcar o seu terreno, digo, a sua mesa. E o fato de os garçons todos saberem que você quer Coca, gelo e limão como bebida, só reitera a legitimidade daquela mesa ser sua. E qual não foi a minha surpresa em encontrá-la ocupada. Isso não seria exatamente um problema se você acabou de se municiar com mimos relativos a Coldplay. Não fosse pelo detalhe do ocupante ser ninguém menos que... Palaia! Sim, o Salvador Hugo.

 

Gente. Eu não conseguia nem comer – imediata perda de apetite, sucedida por terríveis ânsias de vômito – nem parar de olhar para a mesa dele (minha), tentando decidir entre dar um tiro e virar o Dom Sebastião dos palmeirenses, ou resignar-me com o intocado prato de feijão preto à minha frente. Foi difícil conter minha inquietação, porque: 1) Palaia, bem longe de ser uma explosão de sensualidade, é na verdade uma agressão visual, com aquela gravata espalhafatosa metida num terno de corte desalinhado (vulgo “todo torto”); 2) Palaia ferrou com a minha vida futebolística nos últimos dois anos – e não pensem que foi só o Marcinho Pebolim, não, só que não vou fazer uma lista, podem tirar o cavalinho; 3) Era a própria imagem do inferno: ver os glúteos do Palaia espaçosamente estacionados na cadeira que, como explicado acima, era minha; 4) "Modos" não deve ser uma palavra do vocabulário do Palaia, e o maldito certamente estava tomando Pepsi sem gelo e almoçando lascas de fígado mal-passado.

 

Mas ao passar por mim na hora de abandonar o recinto, percebo, com algum sofrimento sadomasoquista, que o tal não era o Palaia. Meu almoço teria ido para o saco de qualquer forma, afinal, um sujeito idêntico ao Palaia pode até ser um Prêmio Nobel da Paz, pode ter inventado a cura para a Aids, qualquer coisa, só não anula a realidade nojenta de se parecer com o Palaia.

 

Fiquei pensando que pecados esse cara não cometeu em encarnações anteriores, para ter sido punido dessa forma pela atual Criação. Daí me coloquei no lugar do infeliz, de me imaginar sendo igualzinho ao Palaia, e concluí que tem um pessoal nesse mundo bem mais fodido e mal-pago que a gente. Ou seja: não é que o sósia do Palaia melhorou o restante do meu dia?

 

E eu ainda teria o novo CD do Coldplay tarde adentro. Com DVD bônus.

 

Ainda dá. (FF)

 

Próxima encarnação
Postado por Cotovelares às 11h34

Depois de ver a reação do meu chefe ao lhe contar o que eu havia feito desta vez, tive a sensação de que esta não será mesmo uma existência de grandes conquistas para mim. Sabe quando a pessoa te olha com olhar de quem diz “você é imbecil ou o quê?”? Então. Sou um baita dum loser e, pior do que essa constatação límpida assim, é não ter qualquer ferramental para lutar contra isso. Bem agora que eu precisava do meu time para compensar, de alguma maneira, carências afetivas de outras áreas, o time me perde pontos contra Barueri, contra Ponte Preta, contra Santos, contra Ituano. É uma baita quebra de confiança. Ok, as duas vitórias que eu precisava ter tido nessa vida eu tive (conforme sugerido no post anterior), mas eu já fiz muito mais pelo meu time do que ele por mim e estou louco pra mandá-lo às favas de uma vez. Então a minha conclusão é a seguinte: estou vivendo esta vida de cão porque na próxima, serei rei. Não o do Especial da Globo nem aquele outro, eu quero dizer um cara bem-sucedido, vencedor pra caralho mesmo. Tudo o que não sou nesta passagem pela Criação eu serei na próxima e, mais do que isso, poderei incluir nessa pessoa fantástica que me tornarei qualquer detalhe que eu julgue conveniente. Tipo assim:

 

Serei cineasta.

 

Serei tão inteligente quanto sarado.

 

Comprarei os Países Baixos.

 

Terei a conivência das autoridades para brincar de Jogos Mortais com o Marcelinho Carioca e o Maluf (machadadas no peito).

 

Poderei escolher para reencontrar lá pessoas que eu conheci aqui.

 

Eu não queria ter pensado isso, mas pensei. Conheci e conheço nesta vida perdedora muitas pessoas adoráveis, algumas que vivem me salvando, outras tão interessantes quanto esquecíveis. O problema é que o fator “adorável” talvez seja válido para uma vida (esta) e já não faça mais sentido na minha vida vitoriosa da encarnação próxima. Não, o poder não me subiu à cabeça, apenas preciso ser sincero comigo para conseguir visualizar de forma clara as pessoas cujas presenças não se tornem repetitivas numa segunda vida, aquelas que me seriam fundamentais na vitória (lá) assim como têm sido na derrota (aqui), que não tenham mudanças abruptas de comportamento. E, claro, precisam ser pessoas que não estejam de olho nem na minha bufunfa, nem no meu tórax gostoso, nem nos meus pubs de Amsterdã.

 

Não quero pensar na lista. Vou ali me distrair com mais algumas derrotas, para não ter que pensar nisso. (FF)

 

Inesquecível
Postado por Cotovelares às 10h31

Os deuses do messenger podem confirmar: eu tentei demovê-lo da idéia ainda sem saber do que se tratava. Fiquei até meio confuso quando pipocou a janelinha piscante “Guto”. Uai, o Guto não estava em Buenos Aires? Sim, ele estava. Mas um corintiano full time, você sabe como é. No último de meus argumentos, eu ainda teria essa: “foi ele que começou!”:

 

Guto: Chupa.

 

Eu: Caraca, o que você tá fazendo aqui? Sai correndo pra Recoleta agora, já! Vai!

 

Guto: Cara, fui no estádio do Boca hoje.

 

Eu: Puta merda, é demais, não?

 

Guto: Fotografei a taça da Libertadores 2000.

 

Eu: Libertadores 2000 é aquela mesma que eu tô pensando que é?

 

Guto: Aquela em que vocês foram roubados no primeiro jogo aqui. E o segundo jogo terminou 0 a 0. Lembrou?

 

Eu: Não. Eu só lembro do jogo que interessa.

 

(FF)

 

 

Na fila
Postado por Cotovelares às 15h22

E não é que eu estava quase esquecendo o quanto é interessante ir ao cinema sozinho? Digo do ponto de vista de observar o entorno, os pequenos detalhes. Acompanhado você está a mercê – e refém – da companhia. Não que isso seja ruim: provavelmente é a melhor coisa que um cinéfilo pode querer: um bom filme, ao lado daquela pessoa. Mas a experiência sola numa sala de projeção também tem o seu encanto. No final do domingo lá estava eu no Belas Artes, aguardando na fila da sala 2, ao longo da escada. Um tumulto total. Chega um sujeito e pergunta de forma genérica (tipo “para quem quiser responder”) “que fila é essa?”. Havia um casal atrás de mim, e a foi a menina quem teve a iniciativa de dizer:

 

- Pequena Miss Xxxxshine.

 

Pelo contexto, pode-se dizer que o interlocutor descobriu qual filme era. E a menina, toda mulherzinha, com um simpaticíssimo sotaque de interior paulista, vira-se para o namorado e tenta se explicar:

 

- Toda vez que eu tento falar “Sunshine”, eu sempre erro: é Shunshine, é Sunsine...

 

É o tipo de conversa que só se tem a dois. Ninguém, numa mesa de amigos, diz que tem língua presa para falar “Sunshine”. Essa é a graça de se ouvir essas conversas de casal por tabela. Antes que me julguem, eu não estava reparando neles – apenas estava a um palmo deles. E daí toca o celular dela e, pelas respostas, quem ligou estava preocupado com ela:

 

- Sim, entreguei a tese, finalmente! Não, não: deu tudo certo. Pois é, menina. Ah, você lembra? Pois é, eu estava alucinada, né? Mas deu tudo certo. Ah, mas que bom. Obrigada! Beijos.

 

Ela vira para o namorado e começa a explicar que, há algum tempo, ela havia respondido um scrap dessa pessoa que ligou, dizendo que estava numa fase infernal, que a tese estava acabando com ela, etc. Portanto, a pessoa havia ligado para saber se as coisas haviam melhorado e tal. Que gentil! Daí fiquei pensando no quanto as relações humanas estão assim: fadadas a um scrap, quiçá uma ligação. Eu não tenho idéia do nível de proximidade entre a menina com sotaque e a pessoa que ligou, mas havia ali um afeto sincero entre elas. E uma ligação pode aliviar tanta coisa, não é? No meio da fila tumultuada, vejo um velho atrás do casal caipira. Que era simplesmente IGUALZINHO ao Philippe Noiret. Ao Philippe Noiret! Sério, tive ímpetos para perguntar se alguém já havia lhe falado sobre tal semelhança. Mas e o temor de ele me responder "Quem?".

 

É que no cinema você nunca sabe se o colega de poltrona é tão cinéfilo quanto você, ou se simplesmente está ali porque o filme foi indicado ao Oscar. Eu havia estado ali no dia anterior, chegara às 19h15 (a sessão era às 19h30) e os ingressos estavam esgotados. Como assim?! Preciso ser arrogante agora: eu, por direito legítimo, tinha que ter cadeira cativa para rever (sim, era minha segunda vez) Pequena Miss Sunshine quando bem entendesse. Eu sabia do filme desde a repercussão dele em Sundance! Não admito perder meu lugar para gente que só está ali para ter o que falar na véspera do Oscar. Penso em mandar um e-mail para a Fox no dia seguinte, para falar que aumentem o número de cópias em circuito. Enquanto isso, a fila anda e, num relance, vejo aquela que deve ser a menina mais bonita do mundo. Olho para ela com cara de quem a acha a menina mais bonita do mundo, mas ela retribui o olhar como se me dissesse: “obrigada, mas meio que não é só você quem acha isso”.

 

O bilheteiro me lembra que é hora de fingir ser normal. Hora de entrar na kombi amarela. (FF)

Jeremias
Postado por Cotovelares às 13h35

Acho que foi em 2003 que assisti a um documentário sobre o Ziraldo, de grande sensibilidade, chamado Ziraldo em Profissão Cartunista, dirigido por uma moça carioca, Marisa Furtado, que eu conhecia por tê-la entrevistado para a Revista de Cinema. Foi nesse documentário que tomei contato com o personagem dele, Jeremias, O Bom, que ficara famoso muitos anos antes, mas que as novas gerações não conheciam porque os livros com o personagem estavam esgotados também há muitos anos. Ao ver uma única tirinha do Jeremias, tive um deslumbramento, sabe como é? Era mais ou menos assim: o Jeremias guiando seu carro por uma estrada, quando ele nota que o veículo da frente está com a porta aberta. Imediatamente ele põe a cabeça pra fora da janela, a fim de avisar o motorista. Ao fazer isso, Jeremias não percebe que o seu próprio carro perdeu a direção e vai cair numa ribanceira. E ele não se incomoda, porque conseguiu avisar o colega de estrada sobre a porta. Contando assim, não tem graça nenhuma, mas vá lá ver os traços do Ziraldo.

 

Fiquei obcecado em ver mais e mais coisas do Jeremias, e passei a procurar os livros esgotados em sebos. Nada. Cheguei a entrar em contato com a editora do Ziraldo, a Melhoramentos, e a resposta do assessor de imprensa, lembro bem, fora muito educada: ele também me disse torcer pelo relançamento do personagem em novas edições, mas que infelizmente a editora não tinha nenhum projeto nesse sentido. Daí ontem recebo um e-mail da Mônica, queridíssima, que sabia do meu fascínio por Jeremias, me avisando que a Melhoramentos finalmente lançou um livro com o personagem. Fui na mesma hora à Fnac e... uau. Trata-se de uma edição caprichadíssima, com capa dura e tudo. Fiquei emocionado, mesmo, assim que abri na primeira tirinha: há uma fila de pessoas querendo entrar num elevador. Jeremias é o penúltimo. As pessoas vão entrando, inchando o elevador, até chegar a vez do Jeremias, quando alguém lá de dentro grita que só cabe mais um. E Jeremias, então, cede à sua vez para o sujeito que chegou depois dele. Contando assim, não tem graça nenhuma, mas vá lá ver os traços do Ziraldo.

 

E todas as situações do Jeremias são assim, simplórias, corriqueiras. Jogando futebol, ele bate o pênalti fraquinho, nitidamente para o goleiro pegar. O companheiro vai tirar satisfações e o Jeremias, com aquela generosidade toda, explica: “hoje é o aniversário dele!”. É um tipo de altruísmo que, longe de parecer piegas, impacta em mim de uma maneira tão fascinante. Ter esse livro em mãos já é, desde já, uma das grandes conquistas de 2007. Obrigado, Melhoramentos! (FF)

 

 
Aloisio Milani    Diego Iwata Lima    Fábio Fujita    Fernão Ketelhuth    Fernando Masini    JP Ribeiro    Sérgio Praça    Vicente Laganaro
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