Futebol, paixão nacional (da Mongólia) - 1ª parte
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Cotovelares
às
22h49
O tagline era sedutor assim: três comunidades (uma de nômades mongóis, outra no deserto do Níger e a última na selva amazônica brasileira) sem água potável – que dirá energia elétrica para ligar uma TV – tentando desesperadamente achar um jeito de ver a final da Copa do Mundo de 2002, entre Brasil e Alemanha. O GC de abertura, em fundo preto, informa algo como “de quatro em quatro anos, a maioria da população mundial pára para ver o maior evento esportivo da Terra. Para alguns, o acesso é fácil. Para outros, não”.
Corte para o primeiro plano do filme: cinco homens, mongóis, montados em camelos, diante de uma paisagem vazia à frente. A materialização iconográfica do nada. Cada homem, mongol, com uma águia pousada no ombro. Um deles saca o binóculo e visualiza, lá diante, uma pequena raposa fugindo. O mongol faz um sinal e sua respectiva águia parte num vôo lépido em busca da danada. Se alguém me contasse, eu não acreditaria, mas o fato é que a águia dá uma voadora no peito da raposa. Ela cai e, num minuto, já está dominada pela ave predadora.
Os cinco homens, mongóis, festejam o feito. O detalhe é esse: para não terem suas inércias incomodadas, os homens, mongóis, treinaram águias para fazerem o trabalho duro, o papel de homem da casa. "Gente evoluída é outra coisa", o espectador pensa. E daí, tal como fazemos da vitória do nosso time uma coisa mais nossa do que do time, os mongóis dispensam às suas respectivas águias as soluções para seus problemas de afirmação. O primeiro mongol festeja que foi a sua águia quem golpeou gloriosamente a raposa, mas teria sido a do segundo mongol o bote fatal. Um terceiro mongol tenta o blefe, querendo incluir sua águia na conversa, mas é rapidamente desmascarado. “Todo mundo sabe que sua águia tem medo de coelho!”, diverte-se o primeiro mongol. “Todo mundo viu quando ela quase desmaiou diante de uma marmota!”. Sim, alguém levou ao cinema uma discussão sobre a masculinidade das águias da Mongólia. G-E-N-I-A-L!
Futebol, paixão nacional (da Mongólia) - 2ª parte
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Cotovelares
às
22h48
Corte para o interior de um típico lar mongol. Primeiro, vemos as águias enfileiradas para o que deveria representar o jantar delas. Numa outra mesa (sim, as águias estavam numa mesa), as pessoas. Um jovem mongol pergunta para uma velha mongol, de traços andróginos, como foi o dia dela. Ela diz que foi ótimo, como sempre. E vai além:
- Mais um dia contemplando a perplexidade da existência.
Alguém grita “boa!”, solicitando que a frase seja incluída no caderno de citações da vovó. Sem espanto, o jovem mongol que havia feito a pergunta tira do bolso um caderno amarrotado e faz a anotação. E comenta:
- Sem dúvida, é das melhores frases da vovó no mês.
* * *
O grupo de mongóis finalmente consegue encontrar uma torre elétrica e fazer a TV ligar. Mas a excitação pelas imagens do jogo é contida pela chegada de agentes do governo. Há um princípio de desentendimento. O líder dos agentes diz que a TV não pode ser ligada na torre.
- Então vou ligar aonde? – intervém, com propriedade, um dos mongóis, olhando (e sugerindo que todos olhem) à volta, o nada cosmopolita da Mongólia, sem ruas, sem carros, sem água potável, que dirá uma segunda(!) corrente elétrica.
O líder hesita um minuto, frente ao choque de realidade. Mas é categórico na réplica, dizendo que a questão não é o que eles pretendem assistir, a questão é que aquilo é proibido.
- O que é proibido? – segue sem compreender, com propriedade, o mesmo mongol.
O líder hesita novamente. E tenta mudar de assunto:
- Vocês têm um relógio?
Mongol 1 olha para Mongol 2.
Mongol 1: Temos um relógio?
Mongol 2: ...
Mongol 1: ...
Mongol 2: O que é um relógio?
* * *

E esse é só o episódio mongol. Ainda tem o dos africanos postando-se de pé no deserto (fazendo o típico gesto de levarem a mão à altura do coração) durante a execução do hino da Alemanha, e o do índio na Amazônia posando de gostosão entre os colegas da tribo, por ter uma camisa Nike oficial da seleção. Ah, sim, o filme chama-se A Grande Final e se eu fosse você não perderia de jeito nenhum. (FF)
Saideira
Postado por
Cotovelares
às
22h30

Flagrante do último cigarro da curta carreira de FF. "Foi um grande companheiro", reconheceu o cotovelar, sem mais delongas.
Apocalipse - 1ª parte
Postado por
Cotovelares
às
14h04
Após ter sido barrado pelo velho bilheteiro (post Desamparo) e de ter sofrido o diabo em busca do meu assento naquele cinema (post Labirinto), finalmente iria ver Vênus. Eu tinha acumulado toda uma expectativa porque a história do filme, pelo que havia lido, era um mix de Lolita com Morte em Veneza, tudo isso numa perspectiva contemporânea: um velhinho legal-pra-caramba (Peter O’Toole) que inventa uma obsessão por uma garota fútil. Eu adoro os velhinhos legais-pra-caramba do cinema.
A cadeira que eu havia escolhido estava ocupada. Não me incomodei e, após uma negociação amistosa, sentei na terceira poltrona, para que a dupla de velhinhas (provavelmente irmãs, e certamente virgens) já instaladas ali não precisassem sair do lugar. Assim que me sentei, um casal de homens vem pelo lado oposto da fileira e senta-se à minha direita, deixando-me ilhado. Ensanduichado.
Velhinha Virgem 1: Hehe, tá me dando um soninho... hehe.
Velhinha Virgem 2: ...
Velhinha Virgem 1: Você também tá?
Velhinha Virgem 2: O quê?
Velhinha Virgem 1: Cansada.
Velhinha Virgem 2: ...
Velhinha Virgem 1: ...
Velhinha Virgem 2: Tô.
Homem 1: Mas as cadeiras dessa sala são um horror, né?
Homem 2: Se são.
Homem 1: E elas devem ser tão baratas... Ai, quer ver que é só se mexer um pouquinho que elas fazem nhec, nhec?
(Homem 1 mexe-se um pouquinho).
Homem 1: Tá vendo?
Cadeira: Nhec, nhec.
Homem 2: Tô.
Apocalipse - 2ª parte
Postado por
Cotovelares
às
14h04
O filme começa. O grande Peter O’Toole aparece em cena pela primeira vez. Velhinha Virgem 2, a que está do meu lado, faz uma sonoridade rudimentar, algo que lembra remotamente um longo suspiro.
Velhinha Virgem 2: Noooooooooossa, como o Peter O’Toole envelheceu!
Velhinha Virgem 1: É mesmo.
Velhinha Virgem 2: Ele era tão bonito...
Velhinha Virgem 1: ...
Velhinha Virgem 2: Eu também envelheci, mas ele...

Nesse momento, Velhinha Virgem 2 olha para mim, como se visualizasse na minha pessoa a juventude perdida em O’Toole. Homem 1 inicia uma tentativa de se enturmar comigo, para que ríssemos juntos de Velhinha Virgem 2. Eu rio, só que de medo. A coisa toda já se desenhava na minha cabeça: o lanterninha entraria subitamente, avisando que o fim do mundo finalmente chegou, e que teríamos dez minutos para arrumar nossas coisas e morrer. Imediatamente, eu sentiria algo movediço e molhado no pescoço, descobrindo se tratar de uma tentativa de chupão por parte de Velhinha Virgem 2. O reflexo para me defender me levaria ao colo de Homem 1, gerando em Homem 2 o olhar de quem me quer morto. Indiferente, Homem 1 tentaria ser agradável comigo.
Homem 1: Será que rola uma vidinha depois da morte? Hehe.
Eu: Shhhhhh!
Eu só queria ver mais aqueles dez minutos de filme. (FF)
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