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A dança da vitória - 1ª parte
Postado por Cotovelares às 22h50

Não há solução para quem tenta acompanhar a vida cultural desta cidade. Basta ir nos extremos: tanto os ingressos para o show do Coldplay no Via Funchal (R$ 400) quanto os ingressos para a sessão do novo filme do João Moreira Salles, Santiago, no Festival É Tudo Verdade (de grátis) esgotam-se antes que você consiga localizar o final da fila. Fico me sentindo um débil mental, como se participasse de um Show de Truman – em que naturalmente eu seria o Truman – com alguém construindo todo o cenário necessário para que, na hora H, eu não consiga acompanhar os eventos a que me programo.

 

Ok, eu cheguei só quinze minutos antes do horário previsto. Escolado de outras edições do festival, deveria saber que a possibilidade de se assistir a qualquer novo filme de documentaristas consagrados – e João Moreira já chegou ao nível de um Eduardo Coutinho – é disputada a tapa. Tentei me enganar, buscando só as verdades das meias-verdades sobre as quais me apoiava: 1) tinha jogo do Corinthians no horário (como se o time estivesse fazendo a campanha dos sonhos da fiel e fosse mobilizar toda São Paulo rumo ao Pacaembu); 2) a sala do Cinesesc é grande (como se eu nunca tivesse pego lá uma sessão esgotada; 3) fé em Deus (como se eu não fosse meio ateu); 4) carteirada de jornalista (como se alguma vez tivesse funcionado comigo); 5) fé em Deus (porque eu não queria perder o filme de jeito nenhum e os filhos ateus de Deus também são filhos de Deus).

 

Chego ao Cinesesc, e a tradicional fila que paulistano tanto gosta está generosa. Entro no saguão do cinema e tento analisar o cenário. A fila está parada. Uma garota baixinha com cara de invocada e cabelo joãozinho me mede de cima a baixo, como se me jogasse na cara “eu cheguei aqui há uma hora; você chegou agora e quer entrar? Tá legal, vai sonhando, seu anormal”. Ignoro-a placidamente, e busco informações.

A dança da vitória - 2ª parte
Postado por Cotovelares às 22h50

A situação era a seguinte: os ingressos já estavam esgotados, e a tal fila generosa que não andava era uma “fila de espera”. Ou seja: ingressos reservados para convidados do diretor que sobrassem – e se sobrassem – seriam socializados ali entre o pessoal. A moça não sabia me dizer quantos desses ingressos reservados haviam – logo, não sabia me orientar se valeria a pena ou não entrar naquela fila. Saio cabisbaixo, a passos lentos, propenso a ir embora. A baixinha do cabelo joãozinho me olha com nojo e com um sorriso de vitória.

 

Chego ao final da fila, indeciso entre ficar ou partir. É longa. Lembro que voltar para casa naquele horário, quase 19 horas do domingo, é estar mais próximo da segunda-feira. O choque de realidade me faz ficar. Também porque já era quase o horário da sessão, e alguém iria aparecer para dispersar ou entuchar a galera lá pra dentro da sala de uma vez. Uma mocinha do festival – notei pelo crachá – surge no horizonte, vindo decidida em minha direção. Tento pensar o que de errado eu havia feito no saguão, se havia agredido alguém, vomitado no chão, sei lá. Só podia ser esporro.

 

Respiro fundo e deixo que ela fale.

 

- Você é o último da fila?

 

Sim, eu era, e foi o que respondi. Ela continuou:

 

- Está sozinho?

 

Pensei em ser sarcástico e dizer que vim como anexo do casal à frente que se comia em beijos, mas no final optei pelo “sim”. Eu estava sozinho.

 

- É que a organização pediu para entregar esse último ingresso para o último da fila.

 

YESSSSSSSSSSSS!

 

Voltei ao saguão do cinema, nos mesmos passos lentos, e localizei a baixinha invocada. Olhei para ela com meu ingressão à vista, sorriso estampado na cara feliz, controlando, mas não muito, uma dancinha da vitória que insistia em movimentar meus membros superiores.

 

U-HUUUUUUUUUUU!

 

(FF)

Cultive seus ídolos - 1ª parte
Postado por Cotovelares às 11h08

Outro dia alguém me falava que havia superado a fase de idolatrias, perdido a capacidade de sentir, por quem quer que fosse, essa vontade inexplicável de ficar cultuando uma imagem criada. Acho que o assunto era Chico Buarque. Pois eu já adianto que não superei, não. Vejo-me perfeitamente capacitado e motivado para pular no pescoço do Woody ou do Veríssimo quando – e se – os encontrar dando sopa por aí. Do Chico também, embora os capangas dele sejam meio truculentos – no show que vi dele no ano passado, uma tiete que invadiu o palco só faltou tomar uma coronhada. Para alguém que tem na discografia um trabalho intitulado O País da Delicadeza Perdida, alguma coisa vai bem errada. Ou certa.

 

Penso nisso tudo porque na sexta-feira eu havia lido que o Marcão havia sido operado no Hospital Santa Catarina, que fica ali na Paulista, e que receberia alta no sábado de tarde. Bem, sábado de tarde é o momento na semana em que eu naturalmente estou na Paulista ou arredores, nem que seja só para caminhar mesmo. Minha terapia de grátis. Fato é que eu teria uma chance de ver o Marcão de perto, ainda que saindo de uma operação.

 

Quem não é palmeirense talvez não entenda a dimensão do que significa ter o Marcão como um ídolo ainda em atividade. Poderia recorrer à justificativa mais banal, ainda que correta: o maior goleiro da história do clube. Acontece que o Marcos é uma instituição. Foi o maior goleiro da Copa do Mundo de 2002 – logo, o maior goleiro do mundo naquele ano. Chupa, Kahn. Teve proposta para jogar no Arsenal, da Inglaterra, mas preferiu ficar e liderou o time no retorno à Primeira Divisão. O maior goleiro do mundo disputando jogos contra CRB em Alagoas. Isso é que é integridade, bro. Marcão é foda.

Cultive seus ídolos - 2ª parte
Postado por Cotovelares às 11h07

Mas, acima de tudo, Marcão foi protagonista ativo das duas maiores vitórias do Palmeiras em todos os tempos. Os dois clássicos contra eles pela Libertadores, em 1999 e 2000, serão lembrados para sempre, como o Maracanazo, como Sarriá. Jogos inesquecíveis, grandiosos, vibrantes. Qualquer um é capaz de se recordar do clima da cidade de São Paulo na ocasião daqueles jogos. Havia uma tensão no ar, um nervosismo ansioso, que envolvia até mesmo torcedores de outros times. Conheço são-paulinos que dizem que a vitória em 2000, a que o Marcão pega o pênalti do esturricado, foi das maiores alegrias já sentidas no futebol. Se foi para o são-paulino, imagine para nós? Não à toa, nunca vi um torcedor deles falando mal do Marcão. O tal do respeito.

 

Daí no sábado, a idéia do Marcão na Paulista me atormentava. Puta merda, que vontade de ir lá dar um abraço no cara. Não adianta a Placar por na capa a foto dele com o título “Não sou santo”. Claro que é. Se o Marcão não for o São Marcos, quem será, né não? A mesma matéria na Placar põe que ele reclama de os torcedores, invariavelmente, o encontrarem por aí e o agradecerem. “Hoje tenho mais a agradecer ao Palmeiras, do que o Palmeiras a mim”, diz. É um brincalhão. O busto que a diretoria já prometeu a ele parece uma homenagem até pobre.

 

Cheguei ao Santa Catarina e fiquei andando de um lado para o outro ali na frente, até perceber que não saberia o que dizer a ele, caso o encontrasse, de fato. É um problema que tenho com algumas pessoas, cada uma a sua maneira: de gostar tanto, que faltam palavras. Daí não fiquei. Tá certo que, mesmo em silêncio, eu ainda poderia dar aquele salto tradicional no pescoço dele, mas frente a um pós-operatório assim, é melhor esperar por sua recuperação. (FF)

 
Aloisio Milani    Diego Iwata Lima    Fábio Fujita    Fernão Ketelhuth    Fernando Masini    JP Ribeiro    Sérgio Praça    Vicente Laganaro
ABCD    EFGH    IJKL    MNOP    QRSTU    VWXYZ
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