Beber até morrer - 1ª parte
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Cotovelares
às
11h34
Segunda-feira de noite, em casa, sem nada a fazer, me veio a iluminação:
- Preciso rever Despedida em Las Vegas.
Minhas lembranças cinéfilas às vezes me trazem de volta, assim de súbito, a grandiosidade de certas histórias. Numa antiga coluna de cinema que eu tinha aqui no CCC, lembro de ter escrito que nenhum amor cinematográfico me convencia mais do que o de Michael Caine por Barbara Hershey em Hannah e Suas Irmãs. Não, não mudei de idéia. Mas a história de aproximação entre os personagens de Elisabeth Shue e Nicolas Cage em Despedida em Las Vegas também me soa tão fascinante. A essência do amor está ali: a prostituta que concorda em ficar ao lado de um alcoólatra cujo objetivo para os próximos dias é o de “beber até morrer”. Literalmente.
Não penso na postura dela como uma “concessão”, mas sim um respeito a essa vontade dele em fazer uma viagem psicodélica até o limite de suas capacidades físicas e emocionais. Não bebo quase nada de álcool – logo, não conheço as supostas delícias dos efeitos etílicos – mas todo mundo tem alguma fonte de psicodelia (ou no mínimo algum hobby imaterial, vá?) que sirva de referência para compreender o significado disso: beber até morrer. É a sensação, para ele, da liberdade plena, como talvez ele jamais deve ter sentido antes. Uma das coisas que ele faz questão de dizer a ela, quando concordam em ficarem juntos, é: “Você nunca poderá me pedir para parar de beber”. Foda, né?
Beber até morrer - 2ª parte
Postado por
Cotovelares
às
11h34
Até se conhecerem, a personagem dela penava nas mãos de um cafetão gringo, com quem mantinha um relacionamento destrutivo. Mas acho que é equivocado entender a vontade dela em se aproximar de um alcoólatra, ou de quem quer que fosse, apenas como um escape da vida ordinária que levava com o tal gringo. Tem gente que tem essa curiosidade em embarcar na piração alheia, e é o que ela faz, sem nada a perder, disposta a curtir junto. E para isso – amém, Mike Figgs! – temos a cena em que Elisabeth Shue, de maiô preto, sai levianamente da piscina e inicia um desconcertante affair com Cage, que está estirado numa cadeira daquelas de praia. Ela vem por cima dele, garrafa de whisky na mão, e começa a derramar a bebida sobre o próprio pescoço, já com a alça do maiô abaixada e o líquido fundamental percorrendo o colo, os seios, a glória.
Guardadas as devidas diferenças, aos meus olhos seria algo como o Marcão sem aquele layout de matuto do interior nem as entradas, mas com o corpinho da Kirsten Dunst vestida só com a roupa de baixo da Maria Antonieta e empunhando aquele leque, obcecada em querer morder o meu pescoço de qualquer maneira, depois de catar o pênalti do esturricado na semifinal da Libertadores.

Resultado: me dei o DVD de presente de aniversário atrasado e fui atrás de algum alucinógeno. (FF)
Mariana Aydar
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Cotovelares
às
03h24
Dias atrás vi um show da jovem cantora Mariana Aydar no Sesc Pompéia. A menina é uma graça, 24 ou 25 anos, uma voz linda e um talento imenso. Gostei dela? Acho que sim. Mas uma pergunta venho matutando na minha cabeça há tempo: por que toda cantora de MPB que aparece tem que cantar o “ziriguidum”, o “balancê”, o “balacobaco”, “obaluaiê”...
E sempre dão um jeito de enfiar no meio da melodia uma batida de berimbau, cuíca, batida de coco; e misturar tudo com samba ou maracatu, tudo vira roda. E daí?
Bom, primeiro é prudente dizer o seguinte: nada contra samba, chorinho e por aí vai. Fazem parte da nossa tradição musical e tenho o maior respeito. Agora a impressão que dá é que nossas cantoras não conseguem se desgrudar de fórmulas desgastadas e dos vícios antiquados da velha guarda da MPB. É hora de esquecer, nem que seja um pouco, Chico Buarque, Caetano, Gal e Bethânia e revelar nas canções uma realidade mais atual, menos saudosista, menos arcaica.
É hora de ousar e esfarelar ditames.
Que tal falar de buraco-negro, seqüestro relâmpago, síndrome do pânico, cantar o metrô em vez do bonde?
(Masini)
O abraço
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Cotovelares
às
11h31
O cenário era a pracinha de um centro comercial bem metropolitano, cheio de restaurantes. Fosse na Espanha, seria o lugar perfeito para a sesta prevista em lei, com aqueles bancos simpáticos para o exercício da preguiça. Ele estava sentado num deles, posição de índio, lendo qualquer coisa. Então ela passou. Ele cravou-lhe um olhar impetuoso. Ela não estava habituada a ser olhada daquele jeito, não depois que engordou aqueles quilinhos. Então ela retribuiu ao olhar. Não foi um mero olhar de volta, como se só quisesse espiar a pessoa que a olhara daquela forma. Ela RETRIBUIU ao olhar. Ficaram os dois assim, se observando à distância, ela ainda com os restos de susto na expressão, ele com um meio-sorriso do olhar retribuído. Ela caminhava a passos lentos, e olhava para trás em busca de não perdê-lo de vista. Até que ele saiu de sua posição de índio e foi ao encontro dela. Ela percebeu e, insegura, virou-se para a direção que seus próprios pés a levavam, olhando para baixo.
- Olá, ele disse.
Ela virou-se para ele, sem sorrir, sem nada dizer. Ele continuou:
- Queria saber se você quer um abraço.
Ela estampava um ponto de interrogação nas feições. Não conseguia dizer nada. Ele sim:
- É só um abraço. Ou você não gosta de abraços?
Então ela sorriu, tímida, olhando para baixo, ainda sem responder. Após alguns segundos, abriu os braços fazendo uma expressão toda menininha, rendida aos argumentos de quem parecia lhe querer tão bem.
Assim abraçados, ele perguntou-lhe o nome. Ela respondeu baixinho. Ele fez alguns outros comentários, retribuídos com o mais plácido dos silêncios. Até que ele:
- Mas você é tão aconchegante, disse, espalmando-lhe ainda mais as costas.
Ela posicionou os olhos em cima do ombro dele, como se dissesse que adorou ter ouvido aquilo, mas que ficou com vergonha.
Ainda abraçada a ele, ela permanecia sem nada dizer. Até que ele:
- Dá medo, né?
Ela fez um gesto vago. Não trocaram telefones e não se esqueceram tão cedo. (FF)
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