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Um lunático em Belfast
Postado por Cotovelares às 15h51

 

Conheci o cara aí de cima há uma semana em Belfast, na Irlanda do Norte. O nome dele é Cyril Lindsay e ele mora na Rochester Avenue. Depois de passar três dias em Dublin, segui de trem para a capital celta. Cheguei tarde na cidade, oito ou nove horas da noite, o sol ainda teimando com os últimos raios no horizonte. Andei até o albergue, larguei minha mochila e resolvi fazer um passeio rápido pelas redondezas.

 

Comecei circulando pela Queens University, uma área imensa com prédios antigos e cheia de árvores. Mais adiante, avistei o pórtico do Jardim Botânico e resolvi entrar. Já de cara tem uma estátua imponente do físico Lord Kelvin, que eu saberia mais tarde da boca de Cyril se tratar do cientista mais famoso nascido em Belfast e que emprestou seu sobrenome para ser usado como medida de temperatura (o tal do grau Kelvin que estudamos no colégio).

 

Pois bem. Voltando pela avenida que beira a universidade encontrei Cyril, pedalando devagar sua bicicleta e pronto para atravessar a rua. Ele puxou conversa perguntando de onde eu vinha. Falou dos lugares que já tinha ouvido sobre o Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo. Apesar de estar um pouco cansado, resolvi dar corda para suas palavras atropeladas. Iniciou-se então o delírio. O homem desatou a citar nomes de livros e autores que eu deveria ler de qualquer jeito.

 

A maioria das indicações era sobre física, teorias do universo, comportamento da galáxia, etc. Numa empolgação alucinante, sacou uma caneta do bolso, retirou um pedaço de papel de um saquinho de supermercado e começou a anotar quais obras eram imprescindíveis. Cyril escrevia  tudo numa velocidade compulsiva, a letra garranchada, muita coisa não consegui entender. Disse que Belfast era a terra dos cientistas. Concordei para não atrapalhar a retórica-avalanche do homem.

 

Pensei no matemático esquizofrênico do filme Uma Mente Brilhante: Cyril também tinha algo revelador e ao mesmo tempo lunático para me contar. Os olhos bem abertos, compenetrados e loucos, rodando sem parar na órbita. Podia ser um impostor acostumado a impressionar turistas, não sei. Resolvi testá-lo depois de meia hora de conversa. Emendei o único tema que entendia um pouco na área de física. Perguntei-lhe sobre o que ele achava da Teoria da Supercorda?

 

Ele parou de tagarelar um instante. Apertou a testa com os dedos e soltou: “páginas 115 e 162 do livro Order Out of Chaos, de Ilya Prigogine. Está tudo lá, falando da Super String Theory”. Não, não podia ser. Como mais um passo para me impressionar, ele tirou da mochila um livro e me deu na mão. Folheei rápido, passei os olhos em algumas fórmulas e equações. Perguntei sobre o assunto. Ele recomeçou a ladainha, dando detalhes impressionantes, indicando cada página e falando com desenvoltura um bando de nomes ininteligíveis.

 

Abaixei a guarda e obriguei-me a levá-lo a sério. Redobrei minha atenção e embarquei de cabeça na experiência de escutá-lo. Muitas vezes ele não se dava conta da minha presença ali, bradava para ele mesmo, sem se importar com quem o ouvia. Já no final do nosso encontro, perguntei para Cyril com que ele trabalhava? “Meu trabalho é descobrir cada vez mais sobre mim mesmo, passo o dia todo lendo em casa”, essas foram as últimas palavras do lunático de Belfast. (Masini)  

Até a pé nós iremos - 1ª parte
Postado por Cotovelares às 12h40

(Reuters)

 

Há uma cena em Advogado do Diabo em que o próprio Satã, interpretado por Al Pacino, sobe ao ringue de uma luta de boxe, para abraçar ninguém menos que Don King. Ou seja, Don King é amigo do diabo! Eu não sei se foi Don quem apresentou o capeta a Mano Menezes, sei é que eles se tornaram inseparáveis.

 

Porque sim, vamos falar do Grêmio. A tese de que o Boca Juniores na Libertadores tem pacto com o demo é de Fernão Ketelhuth – a minha é a de que a filial do inferno foi aberta em Porto Alegre. Tem sido empolgante ver o Grêmio disputar qualquer partida minimamente decisiva. Esse time está escrevendo uma história que daqui a uns 30 anos será lembrada como exemplo de como se recuperar a grandeza perdida. Não é o Botafogo que volta para a primeira divisão como vice-campeão da série B. Não é o Atlético, que é campeão mineiro perdendo o segundo jogo da decisão para o rival (Levir Culpi no comando talvez explique muita coisa). É o Grêmio.

 

Da draga à glória. Foi a partir de uma vitória na Série B – claro, estamos falando da Batalha dos Aflitos, contra o Náutico – que o Grêmio poderá chegar à disputa do Mundial de Clubes. Poucas partidas representaram um Antes e Depois tão determinantes na história de um clube quanto foi aquela em que um obscuro Galatto defende o pênalti que poderia ter mantido o Grêmio na periferia da bola. Aquela em que um insolente garoto de 17 anos, Anderson, entra na área adversária com a calma de um veterano até parar dentro das redes.

 

Ser gremista, hoje, é viver num estado de graça, e esse reconhecimento por parte de um palmeirense é sintomático. Os meados dos anos 90 tornaram Grêmio x Palmeiras o mais competitivo clássico do futebol brasileiro. Um treinador então provinciano, Luiz Felipe Scolari, mostrou ao país que a técnica podia facilmente sucumbir diante de uma coletividade medíocre, se seus integrantes medíocres fossem capazes de algum tipo de superação. Alguém, em sã consciência, acha Rivaldo e Djalminha inferiores a Arílson e Carlos Miguel? Pelo visto, o técnico da técnica, Vanderlei Luxemburgo, não aprendeu.

Até a pé nós iremos - 2ª parte
Postado por Cotovelares às 12h40

Aprendemos a odiar o Grêmio, a odiar Felipão. Fomos educados assim. Como seria possível gostar de um sujeito que mandava bater? Mal poderíamos saber que, anos depois, no comando palmeirense, Felipão soltaria um “se o neguinho passar, dá nele! Dá nele!”, entoado para quem quisesse ouvir com aquele inconfundível sotaque gaúcho – e o neguinho em questão era Edílson, jogando pelo Corinthians. Passamos a amar Felipão.

 

Fato é que, em versão low profile, Mano Menezes também parece atrair (e gerar) façanhas épicas, como talvez nem Felipão tenha conseguido. Outro dia ouvi um comentarista pagar de advogado do diabo, defendendo Luxemburgo por 1) ter disputado “somente” quatro edições da Libertadores, o que seria injusto acusá-lo de perdedor nesta competição – a dúvida do blogueiro é: Mano Menezes jogou quantas?; 2) ter montado um time competitivo com apenas um jogador fora de série, Zé Roberto – a dúvida do blogueiro é: de quantos atletas fora de série dispõe Mano Menezes? Pior: a posição equivalente a de Zé Roberto no Grêmio é ocupada por... olha só, Tcheco!, refugo do Santos, possivelmente dispensado pelo próprio Luxemburgo.

 

E por falar em refugo, o Grêmio ainda tem 1) Lúcio, ex-Palmeiras, aquele que certa vez se disse o terceiro melhor lateral esquerdo do mundo, só perdendo para Roberto Carlos e Maldini (?); 2) o supracitado Tcheco; 3) o matador Tuta, ex-Palmeiras e Fluminense, que mata mais as próprias torcidas do que os adversários; 4) Amoroso, que, se não precisa de apresentações, vale o lembrete de ter sido dispensado pelo Corinthians do Caspelhano. Sem falar em certas aberrações, como o Sandro Goiano que, sabemos, abandonou os ringues do vale-tudo para tentar a sorte como volante . Um time medião, portanto. Ou você faria de um sujeito chamado Patrício o xerifão do time?

 

Ainda nesse princípio de 2007, eu já abro a campanha em vista de 2010: chega de Fernando, Afonso e outras dunguices. Mano Menezes é seleção! (FF)

 
Aloisio Milani    Diego Iwata Lima    Fábio Fujita    Fernão Ketelhuth    Fernando Masini    JP Ribeiro    Sérgio Praça    Vicente Laganaro
ABCD    EFGH    IJKL    MNOP    QRSTU    VWXYZ
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